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segunda-feira, 7 de julho de 2025

A Candidatura do COVID-19: Quando a República Uniformiza e Vigia

 Num país onde se confundem frequentemente os ecos da Revolução Francesa com a razão política, não admira que um almirante se apresente à Presidência com o espírito de um intendente bonapartista. Henrique Gouveia e Melo, com o seu ar de tecnocrata incorruptível e pragmático, propõe-se garantir a estabilidade da Nação,  entenda-se, a estabilidade do edifício jacobino que sufoca as franjas vivas da pluralidade histórica portuguesa.

Não há ironia mais perfeita do que ouvir um militar da Marinha, braço longínquo do Império, negar relevância à Autonomia Madeirense ao afirmar que o cargo de representante da República “não é um problema”. A Madeira, que se revoltou contra o Estado Novo antes que Lisboa sequer despertasse, vê-se reduzida, mais uma vez, à condição de praça vigiada na boca de um político, que defende a existência de um representante nomeado por Belém a pairar sobre a vontade do povo Madeirenses e Porto-santense como um comissário civilizado.

O almirante, na sua cortesia simplificadora, julga que o cargo em causa não cria problemas. Mas a questão não é se o cargo “cria problemas”, é se ele representa uma ideia de Portugal. E representa, de facto: representa um Portugal centralista, uniformizador, alérgico à diferença orgânica e às liberdades regionais e ultraperiféricas. Representa o Portugal que Napoleão sonharia se lhe tivessem concedido um quinto império. Um Portugal onde toda a periferia é “administrada”, e toda a voz distinta é suspeita.

A função do representante da República, sob o olhar de Gouveia e Melo, é “informar a Presidência”, como um informante palaciano, não eleito, a reportar os humores da província ao trono lisboeta. Em que outra democracia se permite tamanho anacronismo senão naquela que substituiu a monarquia por uma república absoluta, onde o presidente não reina, mas administra, com zelo, um país de cidadãos-títeres?

O candidato da pandemia COVID-19, defensor da disciplina militar, não vê problema em que os territórios ultraperiféricos permaneçam sob tutela, mesmo quando nenhum partido regional, nem o PSD, defende a continuação dessa figura. A tecnocracia, quando despida de visão moral e cultural, tende ao automatismo do poder. E o automatismo do poder tende ao centralismo. Tal como em França, onde as regiões são sombras administrativas de um centro absolutista, também Portugal vive sob a ilusão de uma unidade artificial, inimiga das formas intermediárias de soberania.

É aqui que devemos lembrar: Macau teve, até à sua devolução à China, mais autonomia do que hoje tem a Madeira. E essa China, que muitos têm por exemplo autoritário, consagrou em Hong Kong e Macau regimes administrativos especiais com liberdade fiscal, legal e aduaneira que fariam corar de vergonha qualquer estatuto das Autonomias portuguesas. E isto, caro leitor, na República Popular da China.

Por que razão então Madeira e Açores, que foram considerados meras “Ilhas Adjacentes”, arquipélagos estratégicos, e motores de resistência cultural, hão de viver menos livres do que a Bermuda, Ilhas Virgens Britânicas, as Ilhas Caimão, Jersey, Guernsey ou Ilha da Man? Por que razão há de um continente falido moral e financeiramente continuar a determinar os contornos da vida políticas, fiscal, educativa, cultural e institucional da Região?

Henrique Gouveia e Melo não é inimigo da Madeira, seria injusto afirmá-lo. Mas representa uma ideia de Estado hostil à diferença. Não por malícia, mas por hábito. O Estado que ele quer preservar é um Estado que não admite margens. Um Estado onde a liberdade se mede em licenciamentos e a autonomia em relatórios mensais enviados a Lisboa.

Contra esse espírito, levanto a minha voz. Não para restaurar nostalgias coloniais, mas para propor um novo pacto político: uma Autonomia plena para a Madeira e para os Açores. Uma Autonomia inspirada nos modelos britânicos e chineses, onde a soberania interna é respeitada, onde as leis da República são supletivas no caso de omissões, onde a Madeira e os Açores são tratados como parceiros, e não como dependências.

O centralismo é o inimigo da verdadeira liberdade. E a verdadeira liberdade começa pelo direito de governar-se. A Madeira não deve contentar-se com menos à luz do Direito Internacional.

P.S.: Por falar em centralismo, o Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliações Culturais estranhamente só consegue identificar investimentos culturais para efeitos de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (vulgo Vistos Gold) em Portugal continental, como se não houvesse necessidade de captação de investimento para o setor nas Regiões Autónomas. O colonial-centralismo no seu melhor.

in SOL

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Marisa Matias: traidora da Autonomia

Maria Matias, candidata do Bloco de Esquerda à Presidência da República, esteve de visita à Região Autónoma da Madeira e como não poderia deixar de ser veio pregar a cartilha da esquerda anti-autonomista.

Disse Marisa Matias que “o poder local é um instrumento muito importante para uma resposta de maior proximidade”. No entanto, o seu partido continua a dar suporte ao Partido Socialista, o qual pretende verter funções dos Governos Regionais nos municípios, "blasfémia" essa já denunciada pelo socialista Vasco Cordeiro, ex-Presidente do Governo Regional dos Açores. 

A candidata bloquista falha em perceber, que no caso da Região Autónoma da Madeira a inutilidade municipal é mais que óbvia! Em vez de uma descentralização assente num municipalismo (ainda que tendo em conta as especificidades regionais) Maria Matias deveria era defender a extinção dos municípios e juntas de freguesia nos moldes infra.

Num cenário de extinção de municípios e juntas de freguesia (o qual implicaria revisão do Estatuto Político Administrativo) as competências destes seriam transferidas para um instituto público (i.e. o IACM - Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais) tutelado pela Vice-Presidência do Governo Regional. 

Alternativamente, num outro cenário alternativo, os municípios do norte da ilha da Madeira poderiam ser fundidos criando o “Município do Norte”, os municípios do sul teriam o mesmo destino e dariam origem ao “Município do Sul”, sendo que o Funchal e o Porto Santo manteriam a sua “independência municipal”. 

O Funchal por ser a capital da Região Autónoma da Madeira, seria administrado diretamente pelo Governo Regional, tornando-se "território neutro", e o Porto Santo por motivos de dupla ultra-periferia e insularidade constituiria o seu próprio município-especial (agregando as funções da junta de freguesia às da câmara municipal, como já acontece com o Corvo), com eventuais delegações de competências por parte do Governo Regional. 

Mas a incapacidade de Marisa Matias em perceber a Autonomia não se fica pela descentralização municipalista (alegadamente adaptada às Regiões Autónomas), a mesma é também afetada pelo colonial-centralismo (um sentimento e descriminação que a generalidade dos membros do BE têm dificuldade em ocultar do seu discurso oficial). 

A Euro-Deputada, lá do alto do seu colonial-centralismo, entende que República deve "estar presente em todo o território nacional", sendo "a figura de Representante da República necessária para garantir essa presença". É caso para colocar as seguintes questões à Euro-Deputada: é necessário duplicar as funções executivas do Presidente? A República já não se faz representar com a ocupação das Forças Armadas no Palácio de São Lourenço, com a GNR, PSP e demais polícias e sistema judicial? 

No entanto a traição à Autonomia por parte de Marisa Matias não foi feita através das palavras que proferiu, mas sim pelo silêncio que optou por exercer. 

O silêncio de Marisa Matias em relação ao Centro Internacional de Negócios da Madeira (CINM), revela não só a sua traição, mas também os atos de traição do seu próprio partido para com a Autonomia da Região Autónoma da Madeira. Marisa Matias, candidata a Presidente de "todos os Portugueses" optou por não falar sobre o futuro de 6400 trabalhadores; sobre  a potencial impossibilidade de financiar o SESARAM – Sistema Regional de Saúde da Região Autónoma da Madeira; sobre o risco de perda de 13,3% das receitas fiscais regionais; sobre a potencial falência de mais de 1200 empresas; e sobre a potencial perda de 680 embarcações com pavilhão português. Prioridades...


O Dia em que a Lei nos Declara Idiotas

 Há leis que regulam. Outras que ordenam. E há aquelas, mais raras e mais reveladoras, que insultam. O chamado “Dia de Reflexão” pertence a ...