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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

(In)Civilidade



A poucos dias da maioria dos Portugueses entrarem, oficialmente, naquele período conhecido como Advento/Festa, momento alto das tradições Cristãs Portuguesas, importa refletir sobre a (in)civilidade dos mesmos.

 

Comecemos pela falta de consideração pelo próximo evidenciada especialmente na forma de conduzir e a qual conhece a sua expressão máxima na incapacidade dos condutores “fazerem pisca”. Esta (in)civilidade estende-se à não utilização/adopção do sistema de fecho-éclair (os condutores que circulam na via livre devem dar prioridade alternadamente aos condutores que circulam na via que termina ou na qual foi interrompida a circulação) e acaba na incapacidade de se colocarem no lado direito das escadas rolantes, deixando a “via” esquerda livre para os mais apressados.

 

A ausência de “raffinement civilisationnel” dos Portugueses, e em especial dos Madeirenses, é também ilustrada pelo constante mal-dizer e cultura de boato que assola, na generalidade, todos os estratos socioeconómicos. Não obstante, esta cultura de “vida alheia” revela também algo profundo daqueles que praticam tais atos, a sua vulgaridade e fraqueza. As «pessoas elevadas falam de ideias; pessoas medianas falam de factos; pessoas vulgares falam de pessoas» (Leandro Karnal), enquanto que «todos nós temos “força” suficiente para suportar as desgraças dos outros» (François VI, Duque de La Rochefoucauld, Príncipe de Marcillac).

 

Já que se fala na falta de “raffinement civilisationnel” do Povo Madeirense, existe outro aspecto que importa focar: a idealização deste enquanto «herói do trabalho na montanha agreste, que se fez ao mar em vagas procelosas». Se é certo que os primeiros Madeirenses que colonizaram esta ilha são verdadeiros heróis, o mesmo não se pode dizer daqueles Madeirenses, e Portugueses em geral, que nos dias de hoje perpetuam: a constante adoração do compadrio e da cunha, a contínua visão do Estado enquanto figura paterna que tudo deve financiar e em tudo deve contribuir, a constante resignação à imposição das vontades e desejos políticos metropolitanos (no caso dos Madeirenses), o passivismo político e burocrático, a rendição e resignação face à propaganda política (auxiliada pelo boato), o consumismo ávido da especulação, a falta de frontalidade de carácter, o constante tecer de simulações (dentro de simulações, dentro de simulações), etc..

 

Numa época de elevada tradição Católica, que é o/a Advento/Festa, os Portugueses, do alto da falsa Cristandade, deleitam-se uma vez mais com o “parecer” em detrimento do “ser” (potenciado e esvaziado pelo “centro-comercialismo”). Esta (in)civilidade Portuguesa tolda os verdadeiros valores de Cristandade e impede a Ética Protestante, evidenciada por Max Weber, necessária ao “raffinement civilisationnel” e ao desenvolvimento socioeconómico, para acabar com o vassalismo ao “status quo”.

 

Neste Advento que começa já no dia 1 Dezembro os Portugueses deveriam rever a sua posição cultural e civilizacional à luz dos valores Europeus que tanto veneram e alegadamente almejam.

 

​P.S.: «Si le chapeau te fait, mets-le.»

 



quinta-feira, 19 de julho de 2018

Pagar para Trabalhar



Se é certo que o salário médio regional subiu mais do dobro em 20 anos, de acordo com a Direção Regional de Estatística da Madeira, entre 1995 e 2015, tendo nesse espaço temporal o ganho mensal subido dos €517,93 para os €1058,26; também é certo que cerca de um quinto (20%) dos Madeirenses aufere o salário o salário mínimo, i.e.: €592/mês. 

 

Ora neste cenário, e partindo do princípio que grande parte dos trabalhadores nesta situação opta por se deslocar através de transportes públicos, poder-se-á afirmar que os Madeirenses, que utilizam os Horários do Funchal, gastam anualmente entre €524,12 a €549,60 (assumindo o Passe Social I ou II), o mesmo é dizer que podem vir a gastar cerca de 93% do seu subsídio de férias em transportes para que possam deslocar-se, no mínimo, entre as suas casas e os seus postos de trabalho.

 

Ainda que o Governo Regional e os Horários do Funchal possam argumentar os custos de manutenção da frota devido à orografia, e que as empresas que subsidiem os passes sociais possam obter benefícios fiscais ou que o IVA associado aos custos dos mesmos possa ser deduzido em sede de IRS, certo é que os Madeirenses que optem pelo transporte público, por razões de necessidade ou por convicção de cariz ambiental, continuam a hipotecar os seus direitos laborais devido a uma política de transportes públicos desadequada a uma região ultraperiférica.

 

Não podem os políticos Madeirenses argumentar o estatuto de ultraperiferia para exigir subsídios e fundos europeus para colmatar as condicionantes estruturais da Madeira, quando os próprios Madeirenses continuam confrontados com uma política de transportes públicos que os obriga, literalmente, a pagar para trabalhar. A título de exemplo, as tarifas simples dos transportes públicos de Malta, Estado-Membro da União Europeia com população e dimensão idêntica à da Região Autónoma da Madeira, são cerca de metade do preço, i.e. €26, dos passes sociais dos Horários do Funchal.

 

Para outro exemplo mais flagrante da errada política de transportes públicos, na Madeira, e em Portugal, olhe-se para a cidade de Viena, onde o salário médio €3324,28 (Áustria não possui salário mínimo nacional, este é negociado setor a setor entre sindicatos e entidades patronais), e onde o passe normal anual para todos os tipos de transportes públicos é de €365, ou seja 66,5% mais barato que o Passe Social II dos Horários do Funchal. Se é importante acabar com a ultraperificidade da Região relativamente às ligações destas com o continente Europeu, então é ainda mais imperativo repensar os custos dos transportes público regionais.

 

Os Madeirenses não podem continuar a viver com uma política de transportes, públicos ou privados (o arrendamento anual de um lugar de estacionamento no Funchal é quase equivalente ao valor do Passe Social II), que os obriga a pagar para trabalhar, em especial num contexto de ultraperiferia, onde são todos os dias confrontados com custos de insularidade. Urge por isso que os partidos encontrem uma outra política para os transportes na Região Autónoma da Madeira.

 



O Dia em que a Lei nos Declara Idiotas

 Há leis que regulam. Outras que ordenam. E há aquelas, mais raras e mais reveladoras, que insultam. O chamado “Dia de Reflexão” pertence a ...