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quinta-feira, 11 de julho de 2024

Escravatura Moderna

Na sequência da escassez de mão-obra qualificada em setores económicos cruciais, a Grécia adoptou recentemente uma abordagem controversa à reforma laboral. Porém, este cenário não é exclusivo da Grécia, mas reflecte os desafios económicos e laborais hoje enfrentados por Portugal. À medida que estes países se debatem com um crescimento económico cronicamente fraco, o ónus tem sido cada vez mais transferido para os trabalhadores, o que suscita preocupações sobre formas de escravatura moderna na forma de horários de trabalho alargados.

A decisão da Grécia de flexibilizar a regulamentação laboral surge após 15 anos de crise e três pacotes de reformas económicas impulsionadas pela austeridade. Apesar de a semana de trabalho de 40 horas continuar a ser a norma, os empregadores têm agora o direito de prolongar o dia de trabalho até duas horas sem compensação equivalente. Esta prática, embora teoricamente voluntária, coage frequentemente os trabalhadores a trabalharem mais horas. E, a partir de 1 de Julho, muitos trabalhadores gregos de vários sectores serão obrigados a trabalhar seis dias por semana, se os seus empregadores assim decidirem, unilateralmente, com um aumento salarial de apenas 40% para o sexto dia!! Esta mudança coloca a Grécia numa posição totalmente contrária à de outros Estados-Membros da UE, onde os sindicatos lutam pela redução do horário de trabalho para aumentar as oportunidades de emprego e a produtividade dos trabalhadores. Na UE, a tendência tem sido para as semanas de trabalho serem mais curtas sem qualquer erosão dos direitos dos trabalhadores, promovendo um equilíbrio mais saudável entre a vida profissional e familiar e garantindo melhores condições de trabalho.

Portugal, tal como a Grécia, têm-se debatido com instabilidade económica e elevadas taxas de desemprego, sobretudo jovem. A resposta tem sido frequentemente a imposição de medidas de austeridade que afectam desproporcionalmente os trabalhadores. Estas medidas incluem cortes salariais, aumento de impostos e redução dos serviços públicos, contribuindo todas elas para um declínio do nível de vida. À semelhança da Grécia, Portugal enfrenta desafios como salários baixos, oportunidades de carreira limitadas e uma dependência excessiva de sectores como o Turismo, que muitas vezes exploram os trabalhadores através de horários alargados e compensações mínimas.

Numa era em que a automatização, a digitalização e a inteligência artificial estão a revolucionar os mercados de trabalho, a abordagem adoptada por estas economias do Sul da Europa parece regressiva. Países como a China, a Coreia do Sul e o Japão estão a aproveitar a tecnologia para melhorar a produtividade e reduzir o trabalho manual, em setores como a Agricultura, Construção e Turismo. A automatização e a IA reduzem significativamente as horas de trabalho, aumentam a eficiência e proporcionam aos trabalhadores mais tempo de lazer. No entanto, as políticas na Grécia e em Portugal parecem ignorar estes avanços tecnológicos, optando, em vez disso, por prolongar o trabalho manual em condições extenuantes. Além disso, países como a Austrália e a Nova Zelândia demonstraram os benefícios de políticas de imigração altamente controladas, que podem aliviar a escassez de mão de obra. Ao atraírem os trabalhadores estritamente necessários e ao assegurar-lhes condições de trabalho adequadas, estes países conseguiram criar mercados de trabalho mais equilibrados; em contraste com a situação portuguesa, em que prevalece uma política de imigração de portas abertas hipocritamente na defesa dos “refugiados”, que mais não visa que fornecer mão-de-obra barata aos empregadores da Agricultura, Construção e do Turismo.

O aumento unilateral dos dias de trabalho por parte dos empregadores, sem compensação adequada ou consentimento dos trabalhadores, é equivalente à escravatura moderna. Explora as vulnerabilidades dos trabalhadores e mina os seus direitos adquiridos. Esta prática não só não reconhece os potenciais benefícios dos avanços tecnológicos, como também ignora a importância de práticas laborais justas na promoção do crescimento económico e da estabilidade social. À medida que Portugal, à semelhança da Grécia, enfrenta os seus desafios económicos, é imperativo adotar políticas que potenciem as inovações tecnológicas e deem prioridade ao bem-estar dos trabalhadores. Portugal não pode descambar numa Grécia.

in JM-Madeira e Semanário SOL

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Das 9h às 17h



Será que Sua Excelência o Vice-Presidente do Governo Regional, o Dr. Pedro Calado, tem verdadeiramente consciência daquilo que é um mercado de trabalho racional e Europeu? 

 

Faço esta pergunta porque no passado dia 28 de Outubro, e num discurso contrário à matriz social-democrata e “Sá-Carneirista” daquilo que é entendido como sendo os verdadeiros Direitos dos Trabalhadores, o Dr. Pedro Calado declarou, e passo a citar: “Acho que é um modelo que está esgotado. Nós não podemos ter essa ideia na cabeça que o mercado de trabalho é das 9h às 17h”, “Pelo amor de Deus tirem essa ideia da cabeça.”

 

Excelência, o que está esgotado é a generalidade do patronato português continuar a julgar que o salário mínimo é suficiente, que o trabalhador não tem vida pessoal e que substituir horas extraordinárias por subsídios míseros de isenção de horário é o melhor passo para o crescimento sustentável de uma empresa. Recorde-se o mais recente estudo da Michael Page sobre a tendência, reveladora de má gestão, que é o fenómeno do “home office”.

 

O que está esgotado é o patronato português continuar a pensar que um posto de trabalho é um favor prestado ao trabalhador e julgar que condições de trabalho que não permitam o correto equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional são o caminho para a felicidade, desenvolvimento e permanência de um trabalhador na empresa, muito pelo contrário.

 

O que está esgotado é o patronato português continuar a pensar que se pode aproveitar dos benefícios sociais do Instituto de Emprego para dispor de mão de obra a custo zero, financiada pelo dinheiro dos contribuintes, perpetuando assim um ciclo vicioso entre empresas e auxílios estatais mascarados de programas de integração no mercado de trabalho. 

 

Excelência, o que está esgotado é o próprio horário das 9h às 17h. Se este fosse das 7h às 15h como acontece nos países escandinavos e germânicos, e o sector público das 9h às 17h, a grande maioria da população não seria obrigada a justificar faltas ou a gozar de férias para poder adquirir bens e serviços públicos.

 

O que está esgotado é o patronato português continuar a gerir o seu principal ativo, cada vez mais qualificado, como se estes fossem meras máquinas de extrair lucros e dividendos, contribuindo, ainda mais, para o agravamento do inverno demográfico e consequentemente uma produtividade decrescente da população em idade ativa.

 

Essa visão redutora do mundo, das pessoas e do mercado de trabalho revelam apenas uma coisa: a plena ignorância relativamente ao futuro de uma Economia cada vez mais automatizada e assente na inteligência artificial. Portugal e a Região Autónoma da Madeira não podem encarar o verdadeiro futuro daquilo que será o mercado de trabalho enquanto os trabalhadores não tiverem os seus direitos plenamente garantidos e assegurados e o patronato os encarar como meros peões descartáveis de um jogo de xadrez. 

 

 P.S.: Senhor Vice-Presidente, humildemente recomendo a Vossa Excelência que faça uma visita às empresas multinacionais sediadas em Pequim, capital da República Popular da China e veja a que horas os funcionários, em especial o qualificado e com contrato de trabalho chinês, saem do edifício. “Spoiler Alert”: 17h.

 



O Dia em que a Lei nos Declara Idiotas

 Há leis que regulam. Outras que ordenam. E há aquelas, mais raras e mais reveladoras, que insultam. O chamado “Dia de Reflexão” pertence a ...